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Mulher de médico desaparecido desabafa: “É um luto que não é natural”

Nildete Gomes com o marido o médico Roberto Gomes

Manhã de segunda. O telefone toca. O identificador de chamadas aponta uma ligação de São Paulo. Nildete Gomes corre para atender. “Eu sinto uma alteração quando é um número desconhecido de lá”, conta.

Nildete acha que pode ser uma ligação dando conta do paradeiro de seu marido, o médico oncologista
Roberto Gomes, desaparecido desde o dia 26 de novembro de 2014, na capital paulista. Alarme falso. É
a operadora de cartão de crédito.

Pouco mais de dois anos depois do desaparecimento de Gomes pouca coisa mudou no que diz respeito à real conclusão dos fatos. Nildete segue alternando entre o ceticismo de que tudo o que se podia fazer foi feito, e a esperança emocional de que um final feliz sempre é possível. Entre um caminho e outro, começa hoje a venda do acervo do médico capixaba, doado pela própria mulher ao Serviço de Engajamento Comunitário (Secri).

Uma exposição está sendo realizada pela instituição de caridade que realiza trabalhos sociais junto às famílias carentes das comunidades de São Benedito, Bairro da Penha, Itararé, Bonfim, Consolação, Floresta e Engenharia, todas em Vitória.

Até sexta-feira, a entidade fará uma exposição com os itens do oncologista, que incluem obras de arte que chegam a R$ 1.900, como o quadro “A Florista”, de Manoel Costa, datado de 1986.

Há também objetos mais pessoais como relógios, cachecóis, ternos, camisas sociais de grife, gravatas e livros de Medicina. Destaque também para 198 LPs antigos (incluindo uma raridade do formato 10 polegadas) e cerca de 150 CDs e DVDs da coleção de Roberto Gomes.

Há um espaço, semelhante a um consultório, onde estão as comendas recebidas pelo médico, jaleco,
sua foto, e objetos de trabalho. Até a caneta em que ele assinava prontuários está por lá. “Decidimos doar porque, quando a gente perde alguém não tem como guardar os objetos a vida inteira. Ninguém faz isso. Você tem que dar um destino para aquilo. Decidimos doar ao Secri porque eu conheço o trabalho da instituição”, contou Nildete.

Mas ela contou que antes pediu a cada filho que guardasse uma obra de arte do pai. “Eu fiquei com
pouquíssimas coisas. Até por ordem prática também, porque pretendo mudar para um apartamento menor.”

Leia a entrevista na íntegra:

A Tribuna –Mais de dois anos se passaram desde o desaparecimento do seu marido. Como estão os seus sentimentos agora?

Nildete Gomes –É uma situação emocionalmente complicada. Não é como você perder alguém por uma morte, que você sofre muito e depois aquele sofrimento vai passando com o tempo e você vai esquecer aquela pessoa. No nosso caso, não tem mais aquela saudade doída, do começo. É um luto que não é natural, que não progride como numa morte. Nós vamos possivelmente continuar numa certa ansiedade. Mas o que posso garantir é que o desaparecimento é extremamente agressivo.

Você tem esperanças de encontrá-lo?

Do ponto de vista racional, não. Minha esperança é zero. Mas, pensando emocionalmente, eu sempre tenho uma ponta de esperança. Para se ter uma ideia, há 30 minutos me ligaram. E toda vez que aparece um DDD de um número que eu não conheço, sinto uma alteração. Não deixo de retornar nenhuma ligação. Acho que é alguma notícia dele. Mas, racionalmente falando, não consigo enxergar uma possibilidade dele estar vivo porque, do jeito que ele foi procurado, nós teríamos encontrado. Foi muito divulgado, muito procurado.

Você já deve ter respondido essa pergunta muitas vezes, mas agora, mais de dois anos depois, qual a sua conclusão do que aconteceu com ele?

É muito difícil dizer. A possibilidade maior poderia ter sido um sequestro oportunista. Ficamos pensando se ele não foi encontrado por uma pessoa do mal. Nós recebemos quatro ligações de pessoas
dizendo que estavam com ele, pedindo dinheiro. Mas a polícia de São Paulo pediu para que não déssemos bola para isso. A maior possibilidade é de um crime.

Chegamos também a pensar em suicídio, mas me pergunto: como a pessoa vai se matar e desaparecer
com o próprio corpo? Também pensamos na possibilidade dele ter sido enterrado como indigente, mas chegamos a verificar isso.

Vocês conseguiram vender a casa localizada em Pedra Azul como pretendiam?

Não. É uma complicação legal, o processo de desaparecimento envolve muitas coisas.

A renda da senhora reduziu?

A renda despencou. Mas, de qualquer forma, depois de um ano você consegue ter um reconhecimento da Justiça. Depois que você tem uma certidão de ausência é que se conseguem algumas coisas. É porque a pessoa passa a ser considerada morta até que se prove o contrário. Eu então, agora, posso receber a pensão como se fosse viúva. Mas para manter todo o patrimônio, é todo um custo.

Reportagem de Lucas Rezende publicada no Jornal A Tribuna desta terça-feira.

FUENTE:

http://www.tribunaonline.com.br/mulher-de-medico-desaparecido-desabafa-e-um-luto-que-nao-e-natural/