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Tribuna Livre: Ausência de reflexão

por: Fernando Carreiro

“Essa conversão da corrupção em imagem é a lógica do espetáculo”

‘A Morte de Ivan Ilitch’, de Liev Tolstoi, denuncia a existência da “doença da morte oculta”. Ilitch quer morrer porque será o término da sua dor e da vida de mentira que leva. O personagem inicia, então, um processo de busca pelo sentido da vida e percebe que foram poucos os momentos que tiveram significado. Isso foi em 1886.
Na sociedade da imagem tal qual vivemos hoje, 130 anos depois, há uma luta travada diariamente entre a parca vida intelectual e a farta ausência de criticidade. Se fizermos uma análise do sentido desses tempos atuais, vamos perceber que muita coisa significa muito pouco. Ou o muito pouco toma proporções assustadoras.
O mundo todo se vê diante de três grandes vazios. O primeiro deles é o vazio do pensamento, como divagou Hannah Arendt. A principal característica desse vazio é ausência de reflexão, de questionamento, de senso crítico. A inteligência se tornou algo da ordem da aparência, uma moda que molda mercadorias. Nada mais.
O segundo vazio é o da emoção, razão da nossa busca intensa e pelo que pagamos caro, diariamente. Religião, sexo, moda, alimentação, drogas, esportes radicais, fama: queremos que tudo provoque êxtase. É a mercantilização da emoção.
Por último, o vazio da ação. O esvaziamento da política, por exemplo, não foi construído de uma hora para a outra. Somos um amontoado de gente que não pensa nem sente politicamente. O exercício do pensamento reflexivo foi cancelado. Vazios, aceitamos que nos vendam emoções e pensamentos e seguimos reagindo de forma fascista à política: replicando conteúdos, boatos e conversas de toda ordem, em tom beligerante. Nas redes sociais, sobretudo.
Parem de se indignar com qualquer bobagem na internet! Estão todos com pedras nas mãos, prontos para atirá-las ao menor sinal do primeiro pecador. Uma frase mal colocada, uma ironia em um contexto qualquer. Tudo é motivo de aporrinhação, debate e desconstrução.
O escritor Guy Debord publicou, em 1967, a ‘Sociedade do Espetáculo’. Já naquela época, o francês criticava a alienação da sociedade e certo domínio de pensamento dos mais ricos sobre os mais pobres.
O que vemos hoje no Brasil é uma torcida pelo fim da corrupção e, também, dos políticos. Essa conversão da corrupção em imagem é a lógica do espetáculo. Vivemos em uma sociedade que polariza o bem e o mal, o corrupto e o não-corrupto (ou o menos corrupto), quando a discussão de políticas públicas é mais profunda e menos maniqueísta.
O filósofo e historiador do pensamento político Norberto Bobbio indica que “não havendo ninguém do lado de fora que nos possa indicar a saída, devemos procurá-la por nós mesmos. O que o labirinto ensina não é onde está a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar algum”.
Não se pode negar a política. As relações interpessoais, profissionais, comerciais e românticas passam pela política, em sua forma mais abrangente.
A nós cidadãos cabe o abandono desses vazios e o início de uma profunda reflexão sobre o nosso papel na sociedade, o debate de políticas públicas e os caminhos que levam à corrupção e à construção do voto. Aos políticos e chefes de instituições que investigam os desmandos, a lembrança de que o combate aos desvios de dinheiro público é imprescindível, mas não deve ser esta uma plataforma de campanha eleitoral.
Corrupção não é causa. É sintoma.

Fernando Carreiro é jornalista e consultor político

A seção Tribuna Livre é publicada diariamente no jornal A Tribuna. Colaborações para a coluna devem ser enviadas para opiniao@redetribuna.com.br.

 

FUENTE:

https://www.tribunaonline.com.br/tribuna-livre-ausencia-de-reflexao/