Buscador de Noticias Mundial. La mas completa informacion para todos los usuarios en todos los idiomas.



Tribuna Livre: Ativismo e redes sociais

por: Marcelo Barreira

O ativismo, como nova forma de ação política, é um “acontecimento”

Cabe inicialmente assinalar a distinção entre ativismo e militância, mesmo sob o risco de esquematismo. Interpreto “militância” como uma adaptação da vida à luta político-institucional em movimentos sociais com estratégia regular e de longo prazo.
Uma frase que sintetiza bem a postura do militante é a emblemática pergunta “o que é isso, companheiro? ”, sintoma do estupor de alguém ante a constatação da perda de foco político com demandas afetivas, pertinentes tão-só como um descanso no compromisso principal e integral: a seriedade da luta revolucionária. A década de 80 foi marcada pela ação militante. A militância em movimentos sociais foi o modelo de participação política surgido no contexto do processo de “redemocratização”. Uma característica muito presente na época era a dupla militância, no movimento social e no partido político, o que invariavelmente visava o aparelhamento político-partidário daqueles movimentos. Os movimentos apresentavam unidade de objetivos e clareza de identidade, por isso Rodrigo Nunes qualifica-os como sendo de “código fechado”. O elemento chave era converter e conscientizar outros da centralidade de sua causa e agenda política, repetidas nos palanques e nos carros de som.
O ativismo surge de um estilo de vida e de uma prática cotidiana – alimentar; afetiva; etc. – que se converte num ponto de afirmação em face dos valores sociais estabelecidos. Daí se aduz uma bandeira política mais fluida, existencial e menos institucional. Neste sentido, o ativismo como práxis adapta-se mais facilmente a uma ação política virtual, pois o ambiente das redes sociais facilita a tentativa idiossincrática de influenciar outras pessoas. As tecnologias digitais permitiram afluir e intensificar novas subjetividades pessoais e coletivas, e mais interessante: encontrar outras pessoas e outros grupos com interesses semelhantes, mesmo se alheios ao mainstream. A capacidade de mobilização, com capilaridade e velocidade de divulgação com baixo custo, talvez seja a maior mudança entre o modus operandi organizacional entre o modelo analógico e o digital, impulsionado pelas redes sociais, acarretando novo estilo de cidadania ativa e novos perfis de agentes políticos. No entanto, tais eventos muitas vezes geram apenas uma ação performática mal ensaiada e sem maiores consequências; daí a denúncia de um ativismo preguiçoso ou de preguiçosos. O ativismo, como nova forma de ação política, é um “acontecimento”, isto é: algo que paradoxalmente irrompe historicamente e rompe com uma tradição histórica; no caso, uma tradição de como se fazer política. Compreende-se, portanto, a resistência de militantes formados na década de 1980. Embora o ativismo digital traz riscos democráticos, também oportuniza possibilidades, mas só percebe isso quem se abre à irrupção do novo.
Haveria muitos tons de cinza a distinção entre militância e ativismo. As redes sociais são também uma plataforma de ação política para movimentos sociais e partidos políticos tradicionais, quando elas se transmudam num braço virtual de uma luta militante e contra-hegemônica realizada em vários âmbitos, ainda que tal ambiente seja criticado e relativizado em comparação com as ações presenciais. Afinal, há distinção, mas que não impede a complementariedade entre militantes e ativistas nas lutas políticas.

Marcelo Barreira é professor do Departamento de Filosofia da Ufes

A seção Tribuna Livre é publicada diariamente no jornal A Tribuna. Colaborações para a coluna devem ser enviadas para opiniao@redetribuna.com.br.

FUENTE:

https://www.tribunaonline.com.br/tribuna-livre-ativismo-e-redes-sociais/