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Sentimentos extremos

Acidente na BR-101

BR-101 em Mimoso do Sul, onde ocorreu o acidente. Chapas de granito que eram transportadas por caminhão envolvido na batida ficaram espalhadas pela pista. Foto: Beto Barbosa

Por: Luiz Trevisan (*)

“O bolso é a parte humana mais sensível”, reza aquele antigo almanaque irremediavelmente defasado nesta era de tablets e mundo virtual. Porém, a afirmação quanto à nossa parte mais sensível, esta segue atualíssima. E vale para diferentes situações, tanto de extrema alegria quanto de profunda tristeza. Agora mesmo, em meio ao luto dos familiares pela tragédia com o micro-ônibus de Campinho e o alarido de parlamentares contra Eco-101 – pedindo rescisão do contrato, revisão, fim do pedágio, multas pesadas, etc. – surgiu uma luz no sinistro túnel em que se transformou a BR-101 não duplicada.

Trata-se da decisão de parentes das vítimas, de acionar a concessionária na Justiça. Semelhante ação deveria ser extensiva ao governo federal  – embora este seja instituição escorregadia e abstrata, do ponto de vista legal –, mas já fica de bom tamanho ajuizar a questão, mesmo que isso demore na longa e congestionada via burocrática. Quando nada, é uma forma de preocupar os empresários envolvidos. Sabe-se que esta categoria é costumeiramente desprovida de sentimentos, mas sempre reage de pronto quando tocam em seu bolso ou nas ações que flutuam na bolsa de valores.

Acionar na Justiça deveria ser uma regra para todos familiares de vítimas de acidentes onde o poder público é omisso. Um caso emblemático é a travessia em frente à Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), na avenida Fernando Ferrari, uma das mais movimentadas de Vitória. Ali havia uma passarela para pedestre. Veio a duplicação da pista e com isso a passarela foi retirada definitivamente sob argumento de ser pouco utilizada. Então, num acordo nada científico, universidade e Prefeitura de Vitória resolveram investir na sinalização da avenida, por meio de faixas, redutores e semáforos.

Esqueceram que carro desgovernado ou dirigido por imprudentes, bêbados e delinquentes não obedecem sinais horizontais ou verticais. A partir daí, ocorreu uma sinistra sequência de atropelamentos, mortes, ferimentos e seqüelas em diversas vítimas, maioria estudantes, claro. Naturalmente que uma nova passarela ou passagem de nível para pedestres não eliminam acidentes na pista, mas reduzirão as ocorrências e, em última instância, retiram da universidade e da prefeitura possível culpa, na medida em que ofereceram a alternativa de travessia mais segura. Como está hoje, tanto a Ufes quanto Prefeitura de Vitória ficam sujeitos a responder processos indenizatórios ajuizados por parentes das vítimas.

Nesse duelo cotidiano de ganhar ou perder dinheiro, existe todo um sentimento difuso, misto de impacto, alegria e dor. Na mesma tarde de domingo em que morreram 11 integrantes do grupo de dança Campinho, naquele acidente na BR-101, a poucos quilômetros dali, em Itapemirim, uma pessoa de 63 anos teve infarto fulminante ao constatar que ganhou um carro de luxo (Hillux) num bingo.

Neste caso típico de alegria fulminante, a vida parece imitar a arte. “A Fortuna de Ned” é um conhecido filme que se passa numa pequena aldeia irlandesa de belas falésias e pubs enfumaçados. Todos os 52 habitantes acabam envolvidos numa trama quando se descobre que um morador solitário e sem herdeiros, Ned, fora encontrado morto, infartado, tendo no rosto expressão de espanto e nas mãos um bilhete federal premiado juntamente com o resultado do sorteio.

No filme, a comunidade se junta para não deixar o prêmio se perder. Na vida real, é preciso que as vítimas se juntem para cobrar seus direitos. Dinheiro não traz ninguém de volta, pode não trazer felicidade, mas ainda costuma ser a única maneira de se fazer visto.  O resto é parolagem ou fita.

 

(*) Luiz Trevisan é jornalista e compositor.

 

FUENTE:

https://www.tribunaonline.com.br/sentimentos-extremos/